O barbeiro como um carrasco
O meu pai punha-me a cortar o cabelo duas vezes por ano, de seis em seis meses. A penúltima fora em Outubro, antes da escola começar, e a última fazia pouco mais de duas semanas, em Março – o que causou logo grande chacota por parte dos meus colegas. Aos burros é que se tosquiava o pêlo em Março. Ou Março era o mês dos burros. Enfim, num sábado à tarde, o meu pai deixou-me sozinho no barbeiro e tomou de assalto a taberna, a pouca distância dali. Mas havia mudanças na barbearia: os calendários. Os calendários não eram os mesmos; aqueles calendários de anos já passados com a Torre de Belém e o Mosteiro da Batalha e a ponte sobre o Tejo com o nome de Salazar, e ainda um outro com uma paisagem branca da Serra da Estrela, todos eles tinham sido mudados e exibiam agora mulheres seminuas de seios lustrosos e atraentes. As mulheres eram bonitas, mas os seios perturbavam-me o olhar.
Enquanto esperava pela minha vez, sentado num banco, esforcei-me por manter os olhos colados ao chão, a ver cair o cabelo do cliente que me precedia a cada tesourada do barbeiro. O chão de cimento estava preto de cabelo espalhado e o meu pé direito não parava de baloiçar num vaivém nervoso. Como um pêndulo de relógio. Às vezes tomava atenção nas conversas. Tanto falavam de fado, de futebol e de peregrinações a Fátima, como de batatas para semear, marrãs para levar ao porco, porcos para capar e casamentos para breve. O barbeiro era danado para dar à língua, via-se que gostava de intrigas e coscuvilhice. E o meu olhar volta-e-meia a trepar as paredes qual osga peganhenta... Janeiro, Fevereiro, Março quase a terminar, férias da Páscoa em Abril, seios como insólitos frutos perturbantes, olhos rapidamente no chão, pé direito a dar-a-dar...
A minha vez, finalmente. O barbeiro, depois de escovar e virar do avesso o assento do cadeirão verde e cromado, mandou-me sentar. Um cadeirão muito sofisticado que rodava e tudo, que eu podia imaginar como sendo o trono de um rei, mas onde me sentia como na cadeira eléctrica. Cortar o cabelo era um castigo. Quando poderia eu usar o cabelo grande como Jesus Cristo?... O barbeiro colocou-me a toalha branca pela frente e prendeu-a muito apertada ao pescoço, com um alfinete de dama. Endireitou-me a cabeça com ambas as mãos, e que ficasse quieto. No grande espelho, eu a olhar outro eu enterrado no cadeirão da tortura. E os calendários reflectidos. Se olhasse para a esquerda, só mexendo os olhos, podia ver uma bela mulher nua a exibir os peitos firmes e perturbantes, num reclame a pneus. Se olhasse para a direita, outra mulher igualmente bem dotada e igualmente perturbadora, de pele muito clara mas cujas aréolas dos peitos eram extremamente escuras em comparação com o resto do corpo. Tudo isso me puxava o olhar. Tudo isso me atraía como uma mariposa em direcção à luz.
- E a escola vai boa, cachopo? – perguntava-me o barbeiro, o pente e a tesoura de aço silvando muito perto das orelhas.
Vendo o cabelo cair aos tufos que nem folhas no Outono, sentia pouca vontade de falar, mas respondia telegraficamente com sins e nãos ou mais ou menos e assim-assins. A cada resposta, os meus olhos iam parar às mulheres desnudas. Estavam lá um segundo, depois desciam para o mar de cabelo ruço na toalha branca à minha frente. Ou demoravam mais tempo pelas prateleiras de vidro com tesouras, máquinas, navalhas e pincéis de barbear, frascos, caixas amarelas de sabão em pó Claus, pó de talco Claus, espuma de barbear Claus, água de colónia Claus... Seios Claus... Não, não e não. Era impossível ignorar os calendários. As mulheres eram atraentes. Não me podiam culpar só porque as olhava. Se estava a cometer algum pecado, a culpa não era minha. A culpa não era minha!
Foi quando olhei mais demoradamente que senti aquilo. O calafrio duma serpente ali a deslizar pelo ventre. Depois algo a nascer ali sob pressão, uma árvore a desabrochar rasgando a terra visceral. Uma onda de calor no rosto. O rosto em chamas.
Não ousava olhar o espelho.
Salvou-me o barbeiro, passando-me de súbito um pincel molhado atrás das orelhas. Algumas gotas de água escorreram para o pescoço, frias. Depois os dedos do homem a fazerem-me inclinar a cabeça com firmeza, e o fio duma navalha a raspar o couro cabeludo em redor da primeira orelha, depois em redor da outra. Dolorosamente. E o lugar das suíças. Arrepiantemente. O barbeiro, agora, como um carrasco.
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O meu pai punha-me a cortar o cabelo duas vezes por ano, de seis em seis meses. A penúltima fora em Outubro, antes da escola começar, e a última fazia pouco mais de duas semanas, em Março – o que causou logo grande chacota por parte dos meus colegas. Aos burros é que se tosquiava o pêlo em Março. Ou Março era o mês dos burros. Enfim, num sábado à tarde, o meu pai deixou-me sozinho no barbeiro e tomou de assalto a taberna, a pouca distância dali. Mas havia mudanças na barbearia: os calendários. Os calendários não eram os mesmos; aqueles calendários de anos já passados com a Torre de Belém e o Mosteiro da Batalha e a ponte sobre o Tejo com o nome de Salazar, e ainda um outro com uma paisagem branca da Serra da Estrela, todos eles tinham sido mudados e exibiam agora mulheres seminuas de seios lustrosos e atraentes. As mulheres eram bonitas, mas os seios perturbavam-me o olhar.
Enquanto esperava pela minha vez, sentado num banco, esforcei-me por manter os olhos colados ao chão, a ver cair o cabelo do cliente que me precedia a cada tesourada do barbeiro. O chão de cimento estava preto de cabelo espalhado e o meu pé direito não parava de baloiçar num vaivém nervoso. Como um pêndulo de relógio. Às vezes tomava atenção nas conversas. Tanto falavam de fado, de futebol e de peregrinações a Fátima, como de batatas para semear, marrãs para levar ao porco, porcos para capar e casamentos para breve. O barbeiro era danado para dar à língua, via-se que gostava de intrigas e coscuvilhice. E o meu olhar volta-e-meia a trepar as paredes qual osga peganhenta... Janeiro, Fevereiro, Março quase a terminar, férias da Páscoa em Abril, seios como insólitos frutos perturbantes, olhos rapidamente no chão, pé direito a dar-a-dar...
A minha vez, finalmente. O barbeiro, depois de escovar e virar do avesso o assento do cadeirão verde e cromado, mandou-me sentar. Um cadeirão muito sofisticado que rodava e tudo, que eu podia imaginar como sendo o trono de um rei, mas onde me sentia como na cadeira eléctrica. Cortar o cabelo era um castigo. Quando poderia eu usar o cabelo grande como Jesus Cristo?... O barbeiro colocou-me a toalha branca pela frente e prendeu-a muito apertada ao pescoço, com um alfinete de dama. Endireitou-me a cabeça com ambas as mãos, e que ficasse quieto. No grande espelho, eu a olhar outro eu enterrado no cadeirão da tortura. E os calendários reflectidos. Se olhasse para a esquerda, só mexendo os olhos, podia ver uma bela mulher nua a exibir os peitos firmes e perturbantes, num reclame a pneus. Se olhasse para a direita, outra mulher igualmente bem dotada e igualmente perturbadora, de pele muito clara mas cujas aréolas dos peitos eram extremamente escuras em comparação com o resto do corpo. Tudo isso me puxava o olhar. Tudo isso me atraía como uma mariposa em direcção à luz.
- E a escola vai boa, cachopo? – perguntava-me o barbeiro, o pente e a tesoura de aço silvando muito perto das orelhas.
Vendo o cabelo cair aos tufos que nem folhas no Outono, sentia pouca vontade de falar, mas respondia telegraficamente com sins e nãos ou mais ou menos e assim-assins. A cada resposta, os meus olhos iam parar às mulheres desnudas. Estavam lá um segundo, depois desciam para o mar de cabelo ruço na toalha branca à minha frente. Ou demoravam mais tempo pelas prateleiras de vidro com tesouras, máquinas, navalhas e pincéis de barbear, frascos, caixas amarelas de sabão em pó Claus, pó de talco Claus, espuma de barbear Claus, água de colónia Claus... Seios Claus... Não, não e não. Era impossível ignorar os calendários. As mulheres eram atraentes. Não me podiam culpar só porque as olhava. Se estava a cometer algum pecado, a culpa não era minha. A culpa não era minha!
Foi quando olhei mais demoradamente que senti aquilo. O calafrio duma serpente ali a deslizar pelo ventre. Depois algo a nascer ali sob pressão, uma árvore a desabrochar rasgando a terra visceral. Uma onda de calor no rosto. O rosto em chamas.
Não ousava olhar o espelho.
Salvou-me o barbeiro, passando-me de súbito um pincel molhado atrás das orelhas. Algumas gotas de água escorreram para o pescoço, frias. Depois os dedos do homem a fazerem-me inclinar a cabeça com firmeza, e o fio duma navalha a raspar o couro cabeludo em redor da primeira orelha, depois em redor da outra. Dolorosamente. E o lugar das suíças. Arrepiantemente. O barbeiro, agora, como um carrasco.
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