sábado, 17 de outubro de 2009



O Homem Pássaro vai ao cinema


Durante a tarde de sábado, o homem dos filmes andara com a sua ruidosa furgoneta Hanomag e um altifalante ainda mais ruidoso a fazer reclame. «Hoje, às nove da noite, grandioso filme com John Wayne! Não perca! No Centro Recreativo, grandioso filme! Nãaao perca! Com Jooohn Wayne!»...
Era muito raro haver uma sessão de cinema na minha aldeia. Só de tempos a tempos aparecia o cinematógrafo, o homem dos filmes, e se propunha projectar um filme no Centro Recreativo. O homem dos filmes viajava de terra em terra, qual saltimbanco, a mostrar quase sempre fitas de índios e cowboys. Mas isso era sempre, também, uma festa. Da última vez estivera lá um ilusionista que fazia desaparecer pombas e hipnotizava as pessoas e punha-as a comer cebolas como quem come maçãs, no meio da gargalhada geral. Mário, o Mágico. E, no Natal, um grupo de malabaristas em avarias sobre rolos e cadeiras, uns cuspindo fogo, outros equilibrando pratos na ponta do nariz. Ninguém se queimou e prato nenhum se quebrou.
E assim, ao cair da noite, tomei banho na bacia de zinco, jantei, depois penteei-me durante meia hora e despejei quase o frasco de perfume da minha mãe em cima de mim. Não tinha a certeza se ela apareceria ou não no Centro Recreativo para assistir ao filme, mas, pelo sim pelo não, quis ir bem arranjado e perfumado como se fosse para a missa com a minha avó. O problema foi ter posto demasiado perfume, e ainda por cima de mulher. No momento senti-me uma perfumaria ambulante e até enjoado ao ponto de querer vomitar o jantar. Onde punha o nariz, lá estava o incontestável cheiro, a aura invisível que ia comigo para onde quer que eu fosse. Se tomasse banho uma outra vez... Talvez, indo para a rua, o vento levasse parte do perfume como faz ao alecrim e ao loureiro, como faz ao enxofre dos pinheiros, talvez o levasse para longe, o arrancasse da pele e da roupa e o disseminasse um pouco por toda a terra. Talvez o vento me ajudasse, como ajuda os pássaros a voarem. E o Homem Pássaro, onde estava? O meu outro eu era o Homem Pássaro. Precisava dele. Agora era o Homem Perfume Exagerado e tinha a certeza que afastaria todas as raparigas em vez de as atrair. Especialmente, claro, ela. O perfume de arroz-doce dela seria sorvido num ápice pelo meu perfume barato que só cheirava a perfume barato e nada mais. Todos os perfumes seriam sorvidos pelo meu, toda a gente me apontaria o dedo e toda a gente se divertiria à minha custa, sobretudo os meus colegas de escola, que iriam aparecer no Centro Recreativo de certeza absoluta.
Por isso, fui para o quintal e voei no lusco-fusco da noite, ao lado dos pirilampos e dos morcegos, que eu sabia não serem pássaros, como teimavam as velhas, nem ratos com asas, mas simplesmente morcegos, mamíferos voadores. De braços abertos, corri ao longo da horta da minha avó, torneei as couves-de-horto gigantes e, lá ao fundo, a figueira retorcida cheia de nós tentaculares. Quando cheguei ao ponto de partida, sustive a respiração e preparei-me mentalmente para me cheirar. Só depois é que me cheirei. O vento tinha-me ajudado, mas só um pouco, e dei outra volta igual. Quando regressei, achei que metade do perfume enjoativo já não estava em mim – estava espalhado pela escuridão, pela noite, pelas sombras, pelos ralos, pelos luze-cus, pelos morcegos e pelas couves da minha avó. O Homem Pássaro, que era eu, recolheu as asas, satisfeito, e virou as costas a tudo isso.
O cinema esperava-me.
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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Alcaçuz, alcaçuz!

As termas eram um lugar bonito. Havia palmeiras e outras grandes árvores que eu não sabia que se chamavam plátanos e castanheiros-da-índia, jardins de roseiras perfumadas, melros e rouxinóis. Em cada esquina uma fonte, ou um repuxo, ou quase isso, lagos com cisnes e peixes vermelhos, água saudavelmente espumosa a saltitar sobre rochas de musgo sedoso, pontes de madeira e muros de pedra antigos prenhes de fetos e avencas deslumbrantes. E mais água. Sempre água a escorrer.
Velhos, sobretudo velhos, passeavam-se ao sol arrastando os malefícios do corpo e da idade, ou bebiam água na buvette, servida por uma senhora de bata branca, ou faziam ginástica na piscina de água morna, ou recebiam jactos frios no corpo, na coluna vertebral e nas coxas. A minha avó fez tudo isso e eu cheguei mesmo a beber aquela água com borbulhas que saía de torneiras doiradas, servida pela senhora da bata branca. Meia hora depois vomitei – gomitei – o corredor de azulejos asseados e todos os velhos que por ali passaram me fizeram uma festa no cabelo para me reconfortar. Coitadinho!... Outros deram-me um aperto afectuoso nas bochechas. E uma velha muito sorridente, que falava francês, que todos os dias me dizia várias vezes bonjour – booonjouuur – ofereceu-me um bombom de alcaçuz que parecia uma mangueira preta enrolada. Uma corda preta. Uma cobra preta. Enrolada. Preta.
Alcaçuz, alcaçuz, antes comer caracóis crus!
Eu detestava aquele sabor, nem sequer sabia o que era. Dava-me mais vómitos. Gómitos... Dava-me voltas ao estômago. Ao estôgamo... No entanto, mastiguei o bombom até ao fim, contrariado, porque a velha madame estava sempre ali por perto a olhar para mim e a lançar-me uns sorrisos que me intimidavam.
Alcaçuz, alcaçuz, antes lamber pus!

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sábado, 1 de agosto de 2009

segunda-feira, 20 de julho de 2009




A minha Lua


Amanhecia. Via-se a lua ainda com um sorriso feliz de noite de pândega, branca e esburacada lembrando uma hóstia prestes a ser absorvida pela bocarra azul do mundo. Estava quase a tocar a muralha circular da Fórnea, diria que a escassos metros, e apetecia ir lá e mexer-lhe com as mãos. Divaguei. Lua, ó feiticeira lua... Estás tão longe e, no entanto, quase tocas a espinha dorsal desse dinossauro adormecido que é a montanha que enxergo da minha janela aberta aos pirilampos! Quantos segredos escondes tu com esse rosto de mica para me apetecer uma escalada e tocar-te com a mão, acariciar-te a face de sorriso angélico?... Se no teu lado mais escuro está um homem que corta silvas por castigo divino, então eu sou um extravagante lunático e Diana, embora caçadora de arco e flecha, matando corços e veados no bosque enluarado, é a minha deusa predilecta...
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quinta-feira, 16 de julho de 2009


Ópio?

Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.


(do Opiário, Álvaro de Campos)
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domingo, 12 de julho de 2009


Corre, miúdo, corre

Na minha infância, de facto, reconheço terem acontecido coisas impossíveis de lembrar, outras de que formo uma vaga ideia, e ainda outras claramente distintas.
Lembro-me particularmente das noites de trovoada e do mutismo da família, à espera de sabe-se lá o quê... A minha avó rezava.

Santa Bárbara bendita,
No céu está escrito
Entre a cruz e água benta;
Nos abrande esta trovoada
Para bem longe...

(Faço aqui um esforço de memória)

Onde não haja
Ovelha com cordeirinho,
Nem cabra com cabritinho,
Nem folha de figueira,
Nem nada que o Senhor queira!

Qualquer coisa assim. E também me lembro das outras noites, dos serões à volta da lareira, da casa cheia de fumo e os olhos a arder, a chorar por nada e por ninguém, e sempre e de novo as velhas, a minha avó, as irmãs da minha avó e as amigas da minha avó – essas velhas faladoras e bisbilhoteiras, eternamente com uma história para contar. Para elas, ou nelas, a língua seria a última parte do corpo a morrer, assim como a última a decompor-se. As velhas tinham sempre uma palavra a dizer, e mais isto e mais aquilo, e era assim e era assado, e foi fulano e foi sicrano... Os velhos não eram bem-bem assim. Os velhos fechavam-se na sua concha e a morte era esperada com paciência de Job, ainda que, talvez, com um sentimento de impotência e, por resultado, uma raiva muda. Elas, não; elas falavam, falavam sempre, mesmo que repetissem a mesmíssima coisa dúzias de vezes. Eram incansáveis. Eram imparáveis. Parecia-me que a única função que tinham no mundo era falar, e que a minha era ouvi-las. O espantoso era que elas, as velhas da minha infância, eram umas exímias contadoras de histórias – histórias fantásticas, do arco-da-velha!...
Nunca cheguei bem-bem a perceber por que carga de água elas nos contavam essas coisas de arrepiar. Mas nós, miúdos, gostávamos a valer. Eram histórias de pessoas com poderes estranhos e diabólicos, de espíritos e almas do outro mundo, cenas macabras que se passavam quase sempre à noite. Ficávamos a magicar, a tentar ver tudo isso com os nossos próprios olhos, embora assustados que nem ratos. Mesmo assim, gostávamos. E as velhas prosseguiam, inflexíveis, com aquele ar sabedor e experiente de quem diz que já passou por muitas atribulações na vida.
Mas, enfim, na minha infância, as histórias que me impressionaram sobremaneira e ficaram melhor gravadas no cérebro foram sem dúvida as histórias de lobisomens, ou, como nós dizíamos – como elas diziam –, belisomens.
As velhotas nunca nos contavam como eram realmente esses monstros. Porque, na verdade, também elas jamais viram fosse lá o que fosse. Daí que tivéssemos uma vaga ideia e os imaginássemos como homens que, à meia-noite e à lua cheia, inexplicavelmente, se transformavam em algo semelhante a lobos. Caminhavam de pé, tinham o corpo repleto de pêlos e cabelos, porventura ainda envergando roupas em farrapos, garras de lobo, dentes e colmilhos de lobo, talvez com laivos de espuma, talvez de sangue (conforme), olhos brilhantes e fendidos – uma cara feia, horrenda, ameaçadora – enfim, uma criatura metamorfoseada de um horror indescritível, deambulando e correndo no escuro da noite, à lua cheia, sequiosa de carne, sangue!... E também constava que, quando alguém se visse em apuros – embora, em rigor, isso jamais tivesse acontecido –, a única salvação era subir uma árvore e, aí, com um objecto afiado, tentar picar a besta até que se desse a metamorfose lobo-homem.
Homem-lobo. Lobo-homem. Lobosomem. Lobisomem.
Era arrepiante, medonho. Ficávamos a magicar coisas e loisas, aterrados, e na cama, à noite, jamais ousaríamos relancear os olhos pela janela. E quando os gatos, com cio, na rua, miavam como bebés a chorar desalmadamente, então nós, miúdos, encolhidos debaixo das mantas no frio de Janeiro, tornávamo-nos minúsculos, puros esfregões de medo, sem pinga de sangue, e não nos atrevíamos a abrir a boca, dizer: «Mãe!», dizer: «Mãe, tenho medo!» Talvez julgássemos que os bebés berravam por terem sido abandonados àquela hora da noite, e que estavam prestes a ser devorados, ou pelos lobos ou pelo lobisomem. Nesses momentos terríveis, o que queríamos ser era ser homens, porque os homens, regra geral, eram valentes e não tinham medo de nada. Pelo menos era essa a ideia que fazíamos deles, pelo que víamos ou pelo que eles próprios contavam. Depois, tínhamos sonhos que eram verdadeiras torturas psicológicas. O lobisomem, ou, vá lá, no mínimo o homem feio e mau, era um personagem quase constante do nosso fantástico mundo onírico. O papel dele era perseguir-nos, o nosso era fugir. Tínhamos sonhos que eram verdadeiras perseguições. Mas o monstro, porém, apanhava-nos. Embora nos escondêssemos bem, mesmo que nos escondêssemos em guarda-fatos, descobria-nos sempre. Talvez ele nos visse esconder, porque, inexplicavelmente, quanto mais dávamos às pernas, menos corríamos. Era como estar suspenso no ar e tentar correr; era como aqueles ciclistas que treinam sobre dois rolos, que se estafam a pedalar e estão sempre no mesmo sítio...
Mas entrementes fomos crescendo, crescendo, e, à medida que nos fazíamos rapazes crescidos, dávamos cada vez menos importância às histórias das velhas – no nosso lugar estavam outros miúdos, que cresceriam e que dariam lugar a outros miúdos... sempre assim. Talvez que, ao crescermos, não tivéssemos mais paciência para aturar as velhas; não, não tínhamos mesmo. As nossas aspirações eram agora outras: as raparigas. A atracção pelos belos cabelos de Preciosa. A fragrância da pele morena de Sara. A curiosidade pelo peito que ganhava forma de Maria... Também já não tínhamos mais a ocasião de estar ao pé das velhas e ouvir as suas histórias. Estas, porém, permaneciam em nós – permanecem –, porque a alma humana é uma arca bem funda onde se guardam todas as ninharias. Pode mesmo chegar a altura em que queremos deitar algumas fora, mas estão de tal modo ligadas a nós que não podemos, não conseguimos... E tornamos a fechar a arca e outro dia qualquer subiremos ao sótão... Sempre, sempre assim...
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quinta-feira, 2 de julho de 2009



Adeus, matemática!


Um dia sonhei que queimava todos os livros de matemática. Enquanto atirava um a um para a fogueira, feliz, comentava:
- O fogo é o melhor amigo do homem.
- Mas já não é o cão? – interveio uma voz.
- Não, não. O fogo foi, é e será sempre o melhor amigo do homem.
Os meus olhos brilhavam. Um fumo espesso e negro como tinta subia aos céus numa coluna ligeiramente helicoidal. Era um fumo de números e fórmulas, matemática que se evaporava, teoremas de Thales, Rolle, Cauchy e Lagrange, determinantes de Laplace, Rouché e Cramer, séries de Mengoli e Fourrier, critérios de d’Alembert e Leibnitz, matrizes de Cayley-Hamilton, funções de Taylor, derivadas dirigidas, vectores e espaços vectoriais, primitivas e integrais, primitivas imediatas e quase-imediatas, equações e inequações, referenciais cartesianos, radicais, coordenadas e abcissas, bissectrizes e meretrizes... perdão... mediatrizes... Eram visões claras de números, regras e fórmulas que se desquadrilhavam e rodopiavam ao sabor da brisa. Era a desordem e o caos da matemática. E eu sorria, feliz. A multiplicação de polinómios parecia-me, a mim, um poema vagabundo de Alberto Caeiro. O meu olhar é nítido como um girassol... E o binómio de Newton era a própria Vénus de Milo – sempre foi, aliás. Inúmeros sinais, o x, o y, o z, o n, alfa, beta, delta, maior, menor, igual, raiz quadrada, vectores u e v, todos eles andavam à solta tal qual estorninhos desnorteados. O sinal de infinito às vezes parecia uma serpente voadora, outras a máscara de Zorro. O pi assemelhava-se a um monumento sepulcral, uma anta pré-histórica que de repente tremia, tremia e logo se desmoronava em 3.1415926535897932384626433832795... – um número infinito de dígitos (que consegui memorizar melhor que Einstein), seguros como uma escada de corda das aventuras de Huckleberry Finn, a perder de vista pelo céu adentro, cada dígito um degrau, ou como uma incomensurável molécula de ADN em espiral. O teorema de Pitágoras, coitado, estava feito num oito. Senos, co-senos, tangentes e co-tangentes dispersavam-se sem sentido como cães vadios outrora ferozes, mas agora livres e mansos, dando à trigonometria um ar anárquico e poético, que me fascinava, antes de se sumir totalmente na vastidão do azul celeste. Aquele fogo era um fogo mágico que transformava a matemática em poesia, que deslumbrava como um colorido e surpreendente fogo-de-artifício, mas que, em vez de pingar e cair em repuxo, subia e desaparecia no céu. Fiquei de olhos esbugalhados, sabia que era o adeus aos números, às equações e à matemática em geral. A matemática morria e, enquanto isso, libertava-se do inferno e ia para o céu... Eu devia ser a pessoa mais feliz à superfície da Terra.
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quarta-feira, 1 de julho de 2009



A mão heptadáctila

No meu tempo de escola, ao toque da sineta seguia-se o quase silêncio, como se alguém fechasse a torneira do ruído. As vozes, os risos, os gritos ficavam presos nas gargantas à espera doutra oportunidade. Rapazes e raparigas entravam em fila conforme cordeiros de um rebanho e à entrada diziam «bom dia, Sra. Professora Balbina», ou «bom dia, Sra. Dona Balbina».
A Sra. Professora Balbina, ou a Sra. Dona Balbina, ou ainda a Sra. Professora Dona Balbina usava uns óculos grossos que lhe diminuíam os olhos perspicazes de coruja, como que vistos lá ao fundo num precipício, e o seu rosto magro fazia um V invertido desde o topo do nariz até aos cantos da boca. Era de porte esquelético e vestia sempre saias compridas que chegavam aos tornozelos. Velha, solteirona e feia, feia como a padeira de Aljubarrota, que diziam ser muito feia. Não sorria, nunca sorria, e era muito rígida e muito pontual. A sineta tocava sempre na hora exacta, nem mais nem menos um minuto. Quem chegasse atrasado era imediatamente posto de castigo ou brindado com uma tarefa difícil.
Mas o que mais assustava os alunos naquela Dona Balbina era a sua mão direita: não tinha cinco, nem seis, tinha sete dedos! Sete dedos!
Olhar uma mão assim produzia em nós um calafrio na espinha. Tinha o polegar, o indicador, o médio, o anelar, o mindinho e mais dois sem nome. Eu achava que se lhe podiam chamar o minúsculo e o minusculozinho. Sete dedos!

Miminho,
Seu vizinho,
Pai de todos,
Fura bolos,
Mata pulgas e piolhos!

Cinco dedos, cinco tarefas. E para os outros dois? Este recitativo que a minha avó me ensinou em criança não se podia aplicar a ela, pelo menos à mão direita. Um estalo com esta mão devia doer por dois ou três. Eu equiparava a professora com a famigerada padeira de Aljubarrota, que também supunha ter sete dedos. Mas isso era uma confusão minha. A Dona Brites de Almeida, mulher ossuda e muito feia, diziam, tinha seis dedos em cada mão e matou, isso sim, sete castelhanos, à pá, que se haviam escondido desnorteados e esfomeados dentro do seu forno, naquela tarde de Agosto de mil trezentos e oitenta e cinco. Sete castelhanos, sete dedos. A confusão estava no número sete.
A Dona Balbina não seria capaz de matar sete, nem cinco, nem dois, nem sequer um dos seus alunos, mas aquela mão direita desconforme e aberrante tinha sobre nós um poder excepcionalmente dissuasor. Sobretudo quando a erguia no ar fazendo ameaças disciplinares, ou agarrava com ela a vara de castanheiro, ou a grossa régua com mais de meio metro de comprido.
Como era possível uma professora ter sete dedos? Que utilidade tinham? Sete dedos dariam jeito a uma dactilógrafa, por exemplo, ou a um tocador de acordeão, a um pianista. Numa professora, era pavoroso. Devia ser proibido haver professores com sete dedos. Devia ser proibido haver Donas Balbinas. Esta Dona Balbina usava e abusava da sua mão, tinha consciência que era uma mão com poderes.
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domingo, 28 de junho de 2009



Another brick in the wall


Foi um momento mágico quando ouvi pela primeira vez este tema dos Pink Floyd. Tinha treze ou catorze primaveras, andava no terceiro ou no quarto ano do ciclo, naquele magnífico liceu de tijolo maciço e tijoleira rendilhada, antes de descermos para Porto de Mós, sobre o qual, ao cair da noite, corríamos e saltávamos como homens-aranha destemidos, eu e dois colegas. (Eu era o Homem-Aranhiço, pois era o mais pequeno dos três; depois seguia-se o Homem-Aranha e a seguir, mais corpulento, o Homem-Aranhão – era assim que nos tratávamos). Pois bem, por iniciativa da escola, tínhamos ido gratuitamente ao circo, se calhar o Cardinali, ou o Chen (se calhar nenhum destes, não me recordo), junto à velha central a carvão, e foi aí que, enquanto esperávamos pelos palhaços e os leões, a música passou, arrebatadora e arrasante, pelos meus ouvidos, vinda dumas colunas enormes a debitar decibéis como cataratas de som. Foi um momento fantástico e indescritível. Todos se levantaram das bancadas e, em coro, acompanharam ruidosamente, demolidoramente:
Hey teacher, leave us kids alone
All in all it’s just another brick in the wall...
Estranho lugar, este, o circo, para ouvir pela primeira vez aquilo que se tornaria o hino de uma geração! Aquele hey teacher dos meninos de coro da Islington Green School tocara-me profundamente, a mim, que ainda não me interessava nada por música e bandas de rock. Foi enfeitiçante e deixou-me sem palavras. Para além disso, enquanto todos cantavam euforicamente, deitava eu a vista a uma miúda de beleza e sorrisos divinais, de hipnotizantes olhos verdes, não muito longe de mim, mas nunca passou disso mesmo, porque eu era ainda o Lequinhas-tem-vergonha-das-meninas..., o aluno bom acima da média, mas tímido, ingénuo e, como sempre, singelamente imaturo... Bom, vi há dias a miúda – era ela de certeza absoluta –, já casada e com filhos atrás, larga de ancas, celulítica e pouco atraente. Mas a música, esse hino, ficou cá dentro, catapulta-me sempre para outros tempos e inunda-me de emoções.
Bravo, Roger Waters e companhia! “The Wall” é o melhor disco do século XX !
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domingo, 21 de junho de 2009




O Rui Herbon – notável Escritor –, no seu blogue Absinto ainutildeambulacaodaescrita.blogspot.com (isto não é publicidade…), decidiu atribuir-me o Prémio Lemniscata, o que é uma honra e um motivo para me esmerar mais no conteúdo.
















Alguns dados sobre o Prémio:
O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogues que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores.

Alguns significados:
Lemniscata: curva geométrica com a forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante.
Lemniscato: ornado de fitas; do grego lemniskos, do latim, lemniscu; fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores (in Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora).
O símbolo do infinito é um 8 deitado, em tudo semelhante a esta fita, que não tem interior nem exterior, tal como no anel de Möbius, que se percorre infinitamente.

Sendo assim, e dando seguimento às regras do jogo - que é atribuir o Prémio a outros sete blogues -, a minha escolha recai nos seguintes (estão por ordem alfabética):

- aescadadepenrose.blogspot.com (porque é do Rui Herbon)

- agavetadopaulo.blogspot.com (porque se chama Paulo e recebemos um prémio literário juntos)

- ainutildeambulacaodaescrita.blogspot.com (porque também é do Rui)

- comlivros-teresa.blogspot.com (porque tem livros)

- morreremmagenta.blogspot.com (porque me apetece)

- palavrasdecal.blogspot.com (porque sim)

- tantodemimrabiscos.blogspot.com (porque da sua janela vê o castelo)


terça-feira, 16 de junho de 2009

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O fim do nosso mundo...

Perto da casa do Toino tínhamos uma cabana em cima de uma árvore, primorosamente construída com varas de acácia, envolvida de heras que fizeram um belo trabalho de revestimento ao longo dos anos. Era lá que nos juntávamos para estudar matemática; o Toino dava-me explicações, e se tivesse que lhe pagar por isso, não teria dinheiro suficiente. Mas também nos juntávamos lá com o J. e outros colegas para jogar às cartas e outros jogos de rapazes. Havia lugar pelo menos para quatro ou cinco. Uma mesinha, bancos, prateleiras e, num esconderijo, uma apetecível garrafa de vinho do Porto (coisas do J., claro). O interior estava todo forrado com posters de bandas e ídolos musicais da época, tipo Human League, Depeche Mode, Alphaville, Frankie Goes to Hollywood, Orchestral Manoeuvres in the Dark e tantos outros, mas também The Smiths, The Cure, Duran Duran, Bryan Adams, Simple Minds e U2.
Já a mãe do Toino não tolerava muito bem esta decoração, porque dizia que aqueles grupos e aquela música eram coisa de malucos e uma cambada de drogados... Um dia, o J., que era fanático por carros de rally e Fórmula 1 e obcecado por mulheres bonitas, sobretudo se estivessem nuas, teve a brilhante ideia de arrancar todos aqueles posters (com a nossa conivência) e substituí-los por outros: ficámos literalmente rodeados por seios e traseiros luzidios. Silicone por todo o lado. Até no tecto. Recordo-me de uma Pamela Ander-qualquer-coisa... sim, essa!... que tinha uns belos faróis, segundo as palavras do J. Mas a mais surpreendente, de seios descomunais e ao mesmo tempo assombrosos, colada sobre as nossas cabeças como um peso ameaçador vindo dos céus, era uma tal senhora Lolo Ferrari. Credo! Silicone ou não, que perigo, que mamonas assassinas!... Para o J., já não eram faróis, eram airbags! Os airbags da Ferrari!...
Mas um belo dia, porém, a mãe do Toino descobriu que íamos para a cabana estudar matemática rodeados de voluptuosas e devassas mulheres nuas (salvo seja), e arrancou e queimou tudo – ohhh!... – como na fogueira da Inquisição! Ficámos proibidos de entrar na cabana em cima da árvore por muito e muito e muito tempo. Firme e decididamente.
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domingo, 14 de junho de 2009

Água fria

Calcei as minhas botas e saí para a rua como um animal sai da toca, após a longa hibernação. Devia ter os olhos inchados e os cabelos desgrenhados em pé, com ar de louco ou troglodita, mas não havia ali ninguém para me ver. Além disso, estava tudo imerso numa admirável massa nevoenta. O mundo era um oceano de nevoeiro opaco e branco. Uma folha de papel sem um único risco. Soube-me bem espreguiçar demoradamente e olhar tanta água a correr à minha frente. Ali, no riacho borbulhante e a fumegar vapor, parecia cozinhar-se um manjar de pedras, pedrinhas e pedregulhos.
Avancei, agachei-me e afundei as mãos na água. Tão bom, mexer na água fria, vê-la escorrer entre os dedos! A minha vontade era abrir as goelas e deixá-la entrar para dentro de mim, deixar entrar o riacho inteiro e senti-lo gorgolejar nas profundezas das entranhas, deixá-lo purificar e lavar a noite e a náusea da ressaca. Esfregando a cara, senti a barba áspera como lixa número dois, talvez três (pensei na bodega do armazém onde trabalhava), fechei os olhos e enfiei metade da cabeça na corrente de água límpida. Kerouac tinha razão. Não há no mundo sensação que se compare à de lavar a cara em água fria, de manhã, na montanha.
Mantive-me imerso até aguentar; quando retirei a cabeça, estava a Leandra ao pé de mim, envolta no saco-cama, a olhar-me estremunhada com uma careta de arrepio.
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domingo, 7 de junho de 2009

J.N.R.J.

A pouco e pouco entravam mulheres, crianças e alguns homens. Muitos destes ficavam na rua, sentados ao sol nos degraus do pelourinho, debaixo das árvores ou na taberna. A igreja deles era ali e o deus deles era líquido que escorria dos cascos de pinho para a garganta. As pessoas que iam entrando na igreja benziam-se na água benta das pias, à entrada, faziam a genuflexão com o sinal da cruz antes de se enfiarem em fila nos bancos únicos e compridos, ajoelhavam-se, faziam uma breve oração e depois sentavam-se em silêncio.
Em cada lado da igreja, um santo. Esses dois santos mantinham o ar andrajoso e empoeirado de sempre. Um segurava um livro e uma chave; o outro, um livro e uma caveira na palma da mão. Ambos tinham os olhos lisos e pareciam cegos. Assustavam. Mas a Nossa Senhora, vestida de azul e branco, tinha aspecto de lavada e cheirar bem. Heras verdes e tenras, malmequeres e gladíolos às cores escondiam-lhe o pedestal e quase a nuvem branca donde se erguia. Parecia que tinha chovido sobre ela uma chuva de Primavera. Parecia tão fresca. Parecia tão doce, que a minha vontade secreta era cheirá-la e lambê-la como a um chupa-chupa. Bebê-la como água pura da fonte. (Estava com sede e tinha a garganta seca). Aliás, se pudesse beberia todo o interior da igreja. A frescura da pedra. O branco bebível do azulejo. A luz. A luz que inundava a nave. A nave imensa onde podia imaginar pássaros a voar, andorinhas brincalhonas rasando a cabeça das pessoas e o corredor central onde quase tocavam com a ponta das asas.
Malmequeres e jarros de uma brancura imaculada enfeitavam o altar, onde uma almofada sustinha um grande livro de capa vermelha e folhas que reluziam como oiro. Duas velas de tamanho desmesurado, uma de cada lado do altar, ardiam silentemente. Se eu voltasse dali a um mês, ainda estariam a arder, era essa a impressão que tinha. Se voltasse dali a um ano, ainda estariam a arder. Se voltasse dali a um século, ainda estariam a arder.
Enquanto a missa não começava, eu bebia a frescura que flutuava no imenso espaço da nave, e aquele Jesus Cristo de tamanho natural, preso a uma cruz lá no alto, sobre o altar, não mexia uma palha para sair dali. De tanga a tapar-lhe o ventre, coroa de espinhos, rosto descaído, inclinado para a direita, a sangrar, joelhos a sangrar, o flanco também direito com um buraco também a sangrar, mãos e pés pregados na madeira. A sangrar. O corpo belo, musculoso, ossudo, estático, suspenso na sua própria agonia.
J.N.R.J. Sobre a cabeça. Jesus não ri... já... jé... ji... jó... ju... jamais.
Jesus Não Ri Jamais.
Jesus Não Recebe Jorna.
Jesus Não Come Jeleia.
Come não começava por erre. Nem geleia por jota.
Se Jesus fosse um Homem Pássaro, como eu, não teria deixado que o soldado romano lhe espetasse a lança no flanco direito. Ou teria? Nem sequer se teria deixado crucificar. Ou teria?... Fosse como fosse, aquele Jesus parecia-me bastante real. Ainda me recordava da primeira vez que entrei na igreja, já com essa idade dos porquês, e ter ficado intrigado e ao mesmo tempo assustado com aquele homem nu ali espetado na cruz. Num sussurro, perguntara à minha avó se era um homem verdadeiro e ela, noutro sussurro, respondera-me que sim. Sim, é um homem verdadeiro.
Durante toda a missa não despeguei de lá o olhar. Só mais tarde, algumas missas mais tarde, tive consciência que aquele homem, a sangrar e em agonia, era, afinal, uma estátua. De quê, não sabia – mas era uma estátua, e pude suspirar de alívio.
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quarta-feira, 3 de junho de 2009

Ao Homem Metade

Vou contar, muito resumidamente, a história do Homem Metade (era assim que o «tratava» quando pensava nele). Eu tinha onze anos e estava prestes a dar-se a revolução de Abril de 1974 quando passei a conviver mais assiduamente com ele, e não tenho memória alguma de quando ainda era um Homem Inteiro, normal como todos os homens.
O pai dele tinha uma carpintaria. Assim que lá entrava, o cheiro a árvores cortadas invadia-me os pulmões. Era um cheiro a bosques ceifados. Havia pilhas de madeira e montes de aparas por todo o sítio. O chão era de serradura, andava-se ali nas nuvens. Mas uma serra mecânica de lâmina longa, cheia de dentes, lá ao fundo, causava-me arrepios na espinha quando dividia tábuas em duas, muito perto das mãos que as seguravam. Essas mãos já não tinham alguns dedos. A todos os carpinteiros que eu conhecia faltavam-lhe dedos. Ou o polegar e o indicador, ou só a ponta do polegar e o indicador, ou o mindinho e o anelar. Ao pai do Homem Metade faltavam-lhe dois numa mão e a ponta do indicador noutra. Os que ainda sobravam eram quase todos redondos na ponta, como se a pele tivesse sido esticada e presa com pinças, e praticamente sem unhas. E a serra ceifa-dedos zunia ali tão perto deles, faminta. Não me aproximava muito.
Um dia, como sempre, perguntei pelo filho, o Homem Metade. Tinha, agora, mais confiança com ele e passava muito tempo a escutar as suas histórias. Tratava-o por tu. Às vezes falávamos de pássaros, dos de cá e dos que ele vira por África, e às vezes não falávamos de nada, ficava só a vê-lo colar os fósforos queimados, construindo as suas maquetas com muita paciência. O velho disse-me que o filho estava no lugar do costume, e o lugar do costume era uma casinhota nas traseiras da carpintaria, virada para um bosque em cuja clareira passava um riacho e onde as mulheres da aldeia lavavam a roupa em lajes de pedra. O Homem Metade passava lá dias inteiros, fechado.
Atravessei a carpintaria, os pés sempre sobre o tapete de serradura ancestral. Na casinhota, bati à porta e abri-a sem esperar pela voz de dentro. Era sempre assim que fazia. Entrei e eis o Homem Metade. O Homem Cadeira. O Homem Sem Pernas. O Homem Tronco. O Homem Meio-Homem. De qualquer modo, um Super-homem. Debruçado numa bancada cheia de ferramentas, bocados de madeiras e caixas vazias, colava fósforos na proa de uma caravela.
Lá vem a Nau Catrineta
Que traz muito que contar.
Ouvi agora, senhores
Uma história de pasmar.
Aproximei-me. O Homem Metade esteve três anos na Guiné. Foi para lá (ainda não era Metade) com vinte e cinco primaveras e voltou sem as duas pernas. As duas pernas inteiras, sem tirar nem pôr. Uma bazuca, numa emboscada, tinha-lhe traçado o destino. Oito colegas morreram. Guerra era guerra. Às vezes contava histórias horrendas. O melhor amigo morrera-lhe nas mãos, com os miolos a saírem pela nuca. Viu pessoas queimadas, trucidadas e completamente desfiguradas, sendo impossível reconhecê-las. Um dia cercaram uma aldeia e metralharam sobre tudo que se mexesse. Velhos, mulheres, crianças. Nem o capim ficara de pé. Estavam treinados para matar e estavam a servir a Pátria. Guerra era guerra. Mas agora a sua guerra era outra. Uma guerra surda contra o tempo. Sem as duas pernas, preso a uma cadeira de rodas, a sua guerra travava-se dentro daquela casinhota entre caixas de fósforos, colas e lixas, madeiras finas, pregos e martelos. O dia inteiro fechado. A caravela tomava forma com todos os detalhes. O Homem Metade, pouco falador, olheirento, a barba como um matagal a crescer, tinha jeito para aquilo. Em cima de mesas e prateleiras viam-se a Torre de Belém, o Santuário de Fátima, o Castelo de Porto de Mós, o Castelo de Leiria, o Mosteiro da Batalha e a igreja da aldeia. Tudo em fósforos queimados e com os devidos pormenores. Havia um carro de bombeiros. Uma locomotiva. Um hidroavião semelhante ao de Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Bonito. E havia outras maquetas de monumentos que eu não reconhecia de lado nenhum. Perguntei-lhe se a caravela era a Nau Catrineta. E ele: sim, que podia ser.
Pela janela aberta entravam feixes de luz. Viam-se nuvens brancas que eram couves-flor semeadas pelo céu. Fui directo ao assunto que me levava, desta vez, ali: queria uma porção de cola de madeira. Que podia levar a que quisesse, mas era para quê, podia saber?... A ele, não podia mentir. Não era capaz de o fazer ao Homem Metade. Viver agarrado a uma cadeira de rodas para o resto da vida era já um castigo suficientemente grande. Dizer-lhe uma mentira, por mais insignificante que fosse, não fazia sentido. – Vou fazer umas asas – disse-lhe eu, orgulhoso. Era um segredo meu, mais ninguém sabia. Nem os meus colegas da escola.
- Umas asas? De papel, para brincar?
- Não, de penas, para voar como Ícaro – respondi, e o Homem Metade começou a rir-se e fez marcha atrás para alcançar um alicate. Cabeça, tronco e membros sem-membros. Só braços e calças vazias dobradas sobre o assento salpicado de aparas e lascas de fósforos. Eu não me estava a ver sem pernas. Nada de corridas, nada de bola, nada de trepar árvores, nada de nada. Se me chamassem para a guerra, fugiria antes que me ceifassem as pernas.
- Para voar? – o Homem Metade deixou de colar fósforos e fixou-me atentamente. – Sabes que quando tinha a tua idade também pensei nisso? É verdade. Fazer umas asas para voar. O meu sonho era poder voar. Como Ícaro.
- Eu vou fazê-lo – disse, convicto. – Vais ver!
- E vais atirar-te de onde, para poderes voar?
- Ainda não pensei nisso – eu olhava para as maquetas. – Talvez da torre da igreja.
- É o ponto mais alto da aldeia, de facto. Mas não te esqueças que quanto mais alto subires... mais alta é a queda.
- Não tenho medo das alturas – disse eu. – Quero ser aviador, quando for grande, e além disso vou fazer umas asas tão perfeitas como as de um pássaro.
- Vais ser o homem mais famoso da nossa aldeia... – o Homem Metade gozava comigo; entendia-o. Quando se é novo, com onze anos, todas as fantasias são permitidas. Ele também sonhara com aquilo. Voar. Agora todos os sonhos lhe estavam vedados. O mundo dele resumia-se ao que estava dentro da casinhota. E ao que conseguia ver de longe: largou a caravela, fez rodar a cadeira, tirou uns binóculos duma gaveta e dirigiu-se à janela: ficou assim demoradamente a olhar: lá para o fundo, para a clareira do bosque onde corria o riacho. Perguntei-lhe o que estava a ver. – Pássaros – respondeu, sem desviar os binóculos. Pedi se podia ver e ele, laconicamente, disse para eu esperar. Quando peguei nos binóculos, assestei-os lá para o fundo e procurei pássaros na copa das árvores. As árvores estavam muito próximas, muito folhosas, muito verdes, mas não havia pássaros. Se houvesse, estariam muito bem escondidos. Baixando as lentes para o riacho, vi, isso sim, três mulheres batendo com a roupa nas lajes. Não eram muito novas nem muito velhas, deviam ter a idade do Homem Metade. Tinham os pés na água e as pernas nuas até muito acima do joelho, a pele voluptuosamente clara e luzidia com os reflexos do sol. E voltei a procurar os pássaros. O Homem Metade regressara à Nau Catrineta e queimava mais uma caixa de fósforos. Tinha o silêncio como cúmplice. Não existiam palavras para a sua dor.
- Um dia vais emprestar-me os teus binóculos? – pedi eu; ele não disse nada. Colou mais um fósforo. Perguntei-lhe se já alguma vez tinha visto um cuco e continuei a espiolhar as árvores. Vi um melro do tamanho de uma águia. Tinha, no bico amarelo, uma minhoca do tamanho de uma cobra. O bicho a contorcer-se. E de repente desapareceu. Quando eu disse «estou a ver um melro», contentíssimo, já o pássaro tinha sumido.
- Sabes? Nunca vi um cuco. É por isso que quero viver nos bosques, e ficar à espera. Posso ganhar raízes, mas hei-de ver um cuco. Se me emprestares os binóculos, um dia destes – e ele, claro, emprestava-mos. – É mais interessante assim, vê-se tudo ao pormenor. Também posso ver como os pássaros constróem o ninho, como começam do nada com duas ou três palhas e o vão tornando redondo e fundo e forrado com penas macias e quentes. Não achas que os ninhos, em geral, são uma obra de arte? Eu acho. Depois é ver os ovos eclodirem e os filhotes crescerem de goelas no ar, e depois deixarem o ninho para darem o primeiro voo. Como é que um pássaro sabe que sabe voar? Já pensaste nisso?
O Homem Metade não estava ali. Corria por campos de papoilas e tremocilhas e trepava oliveiras em busca de ninhos. Enlaçava as pernas nos troncos mais compridos das árvores e subia como um macaco. Empoleirava-se e fazia equilíbrio nos ramos horizontais. Tinha onze ou doze anos, como eu… E a caravela à espera de fósforos.
- Mas já alguma vez viste um cuco? – insisti, arrumando os binóculos. O Homem Metade caiu em si. Não. Nunca tinha visto um cuco, se bem se lembrava. Em África vira aves de todas as cores e tamanhos, mas um cuco nunca tinha visto. Só ouvido o cucu ao longe, e a última vez fora há pouco tempo.
- Esse pássaro fascina-me, tem qualquer coisa de mítico. É como o Gigante Adamastor. – Não soube por que comparei o cuco ao gigante lendário de Camões. Talvez por causa da caravela de fósforos. Depois tirei duma barrica para uma lata a cola branca que precisava. Parecia leite espesso. O Homem Metade ainda me deu uma trincha. E agradeci e fui-me embora, porque tinha pressa de construir as minhas asas. Parti a pensar no Homem Metade. Era uma boa pessoa e dar-lhe-ia asas, no tal jogo imaginário que eu tinha: que era dar asas às pessoas boas, sendo eu – coisas de miúdos – o super-herói Homem Pássaro com super-poderes. Asas, pois, para o Homem Metade. As suas mãos faziam maravilhas. Aqueles monumentos todos, feitos com tanta paciência e dedicação, ao mais pequeno pormenor, janelas manuelinas, coruchéus e gárgulas fantásticas, a igreja da aldeia com os cata-ventos e todos os sinos, pequenos e grandes, no campanário. O hidroavião Lusitânia, que fez a travessia do oceano Atlântico de Portugal para o Brasil, pela primeira vez na história da Humanidade, por ares nunca dantes navegados, tinha todos os detalhes. Nem lhe faltavam as cruzes vermelhas da Ordem de Cristo. Ele era um verdadeiro artista, fazia obras de arte com as mãos.
E parti contente por tudo, pelos binóculos que um dia havia de levar, pela lata de cola, pela trincha e sobretudo pelas obras de arte do meu amigo da cadeira de rodas, mas não reparei que o deixara a chorar. Eu tinha onze anos, não podia reparar. As olheiras do Homem Metade tornaram-se lagos insalubres. Grossas e silenciosas lágrimas correram-lhe como rios para o matagal de pêlos da cara. Era sempre assim, soube mais tarde. O Homem Metade regressava à infância para correr pelos campos e ir aos ninhos e trepar as árvores. Longa e dolorosa viagem no tempo, essa. Eu não sabia metade da história. O Homem Metade dormia pouco, e quando dormia acordava sobressaltado com pesadelos que se passavam em África. Crianças negras sem rosto corriam para ele e traziam-lhe as pernas de volta, mas as pernas enchiam-se de vermes e apodreciam num instante. Então as crianças riam, mesmo sem rosto, e ele despejava-lhes tiros e tiros de metralhadora para se vingar da brincadeira de mau gosto. Acordava com suores frios e levava logo as mãos às pernas, mas elas não estavam lá. O pesadelo era quase sempre o mesmo. Também sonhava com o melhor amigo. Via sangue e miolos a escorrerem pelo corpo e o amigo dizia-lhe que estava no Inferno, pedia-lhe que o levasse para o Céu. O Céu estava muito, muito longe. Um bater de porta mais brusco deixava-o nervoso. Uma sirene de bombeiros também. Todos os ruídos fora do normal o faziam reviver a guerra. Um miúdo a correr deixava-o destroçado. A guerra continuava dentro dele. E assim a Nau Catrineta foi sacudida por violenta tempestade. A ira de Adamastor também existia ali, dentro da casinhota. Eu ainda não sabia metade da história.
Mas o Homem Metade, sendo ele, literalmente, metade de um homem, passou a ser para mim o exemplo máximo da coragem e da abnegação humanas. Como se deve imaginar, não cheguei a voar como Ícaro, nem sequer concluí «as minhas asas» de onze anos. Simplesmente, para o resto da vida, conhecer o Homem Metade... tornou-me diferente.
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domingo, 17 de maio de 2009

O barbeiro como um carrasco

O meu pai punha-me a cortar o cabelo duas vezes por ano, de seis em seis meses. A penúltima fora em Outubro, antes da escola começar, e a última fazia pouco mais de duas semanas, em Março – o que causou logo grande chacota por parte dos meus colegas. Aos burros é que se tosquiava o pêlo em Março. Ou Março era o mês dos burros. Enfim, num sábado à tarde, o meu pai deixou-me sozinho no barbeiro e tomou de assalto a taberna, a pouca distância dali. Mas havia mudanças na barbearia: os calendários. Os calendários não eram os mesmos; aqueles calendários de anos já passados com a Torre de Belém e o Mosteiro da Batalha e a ponte sobre o Tejo com o nome de Salazar, e ainda um outro com uma paisagem branca da Serra da Estrela, todos eles tinham sido mudados e exibiam agora mulheres seminuas de seios lustrosos e atraentes. As mulheres eram bonitas, mas os seios perturbavam-me o olhar.
Enquanto esperava pela minha vez, sentado num banco, esforcei-me por manter os olhos colados ao chão, a ver cair o cabelo do cliente que me precedia a cada tesourada do barbeiro. O chão de cimento estava preto de cabelo espalhado e o meu pé direito não parava de baloiçar num vaivém nervoso. Como um pêndulo de relógio. Às vezes tomava atenção nas conversas. Tanto falavam de fado, de futebol e de peregrinações a Fátima, como de batatas para semear, marrãs para levar ao porco, porcos para capar e casamentos para breve. O barbeiro era danado para dar à língua, via-se que gostava de intrigas e coscuvilhice. E o meu olhar volta-e-meia a trepar as paredes qual osga peganhenta... Janeiro, Fevereiro, Março quase a terminar, férias da Páscoa em Abril, seios como insólitos frutos perturbantes, olhos rapidamente no chão, pé direito a dar-a-dar...
A minha vez, finalmente. O barbeiro, depois de escovar e virar do avesso o assento do cadeirão verde e cromado, mandou-me sentar. Um cadeirão muito sofisticado que rodava e tudo, que eu podia imaginar como sendo o trono de um rei, mas onde me sentia como na cadeira eléctrica. Cortar o cabelo era um castigo. Quando poderia eu usar o cabelo grande como Jesus Cristo?... O barbeiro colocou-me a toalha branca pela frente e prendeu-a muito apertada ao pescoço, com um alfinete de dama. Endireitou-me a cabeça com ambas as mãos, e que ficasse quieto. No grande espelho, eu a olhar outro eu enterrado no cadeirão da tortura. E os calendários reflectidos. Se olhasse para a esquerda, só mexendo os olhos, podia ver uma bela mulher nua a exibir os peitos firmes e perturbantes, num reclame a pneus. Se olhasse para a direita, outra mulher igualmente bem dotada e igualmente perturbadora, de pele muito clara mas cujas aréolas dos peitos eram extremamente escuras em comparação com o resto do corpo. Tudo isso me puxava o olhar. Tudo isso me atraía como uma mariposa em direcção à luz.
- E a escola vai boa, cachopo? – perguntava-me o barbeiro, o pente e a tesoura de aço silvando muito perto das orelhas.
Vendo o cabelo cair aos tufos que nem folhas no Outono, sentia pouca vontade de falar, mas respondia telegraficamente com sins e nãos ou mais ou menos e assim-assins. A cada resposta, os meus olhos iam parar às mulheres desnudas. Estavam lá um segundo, depois desciam para o mar de cabelo ruço na toalha branca à minha frente. Ou demoravam mais tempo pelas prateleiras de vidro com tesouras, máquinas, navalhas e pincéis de barbear, frascos, caixas amarelas de sabão em pó Claus, pó de talco Claus, espuma de barbear Claus, água de colónia Claus... Seios Claus... Não, não e não. Era impossível ignorar os calendários. As mulheres eram atraentes. Não me podiam culpar só porque as olhava. Se estava a cometer algum pecado, a culpa não era minha. A culpa não era minha!
Foi quando olhei mais demoradamente que senti aquilo. O calafrio duma serpente ali a deslizar pelo ventre. Depois algo a nascer ali sob pressão, uma árvore a desabrochar rasgando a terra visceral. Uma onda de calor no rosto. O rosto em chamas.
Não ousava olhar o espelho.
Salvou-me o barbeiro, passando-me de súbito um pincel molhado atrás das orelhas. Algumas gotas de água escorreram para o pescoço, frias. Depois os dedos do homem a fazerem-me inclinar a cabeça com firmeza, e o fio duma navalha a raspar o couro cabeludo em redor da primeira orelha, depois em redor da outra. Dolorosamente. E o lugar das suíças. Arrepiantemente. O barbeiro, agora, como um carrasco.
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sexta-feira, 8 de maio de 2009

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Blue Junkie

Já lá ia o tempo daquele Pedro do poster dos hippies na praia, que se empenhava ardentemente em movimentos pacifistas e apologizava o amor livre, onde ousava escrever, no jornal do liceu, coisas como esta «Declaração do Direito ao Amor»:
- Artigo primo: Será do direito de todos o acesso ao amor. Este será feito onde muito bem entenderem os amantes.
- Artigo segundo: Todos os animais terão o direito de se amarem na rua. Que isto nos sirva de exemplo.
- Artigo terceiro: O amor é um dom que nos concedeu a Natureza. Quem contra ele se erguer, impedindo-o de se manifestar, será obrigado a amar oito horas seguidas.
- Artigo quarto: Será proibido usar máscara; o amor, assim, não tem o mesmo sabor.
- Artigo quinto: Será dever de todo o cidadão falar todos os dias em assuntos relativos ao amor.
- Artigo sexto: O amor não será impedido por qualquer filosofia, religião ou política.
- Artigo sétimo: Não haverá medos ou receios em relação ao amor. As pessoas serão livres e sentir-se-ão totalmente à vontade quando sentirem necessidade de o fazer.
- Artigo oitavo: Serão proibidas as violações. Isso não é amor, é um desrespeito ao mesmo.
- Artigo nono: É urgente o amor; façamo-lo já!
Quase apetece dizer: assim falava Zaratustra...
Enfim, o seu saco de cabedal cheio de sinais e símbolos da paz, o cabelo comprido e as atitudes de hippie já não queriam dizer absolutamente nada. Debaixo de tudo isso, bem lá no fundo do seu ser, escondia-se o germe da violência, como um ovo, permanentemente em incubação. Esperando em incubação. Esperando pela hora certa de partir a casca e vomitar fogo e raiva e tudo cá para fora...
Um dia, pasmei. Pasmei. Tinham-me dito (já não o via há muito tempo) que ele estava fisicamente em baixo e à beira de uma depressão, e pediram-me para o ir visitar, já que éramos bastante amigos e com ideias muito próximas acerca da vida e do mundo. Quando bati à porta, depois de vários chamamentos, apareceu-me ele de espingarda na mão. Pasmei! Era uma espingarda caseira de canos serrados. Disse-me que era para dar cabo do primeiro chui que entrasse ali, pois afirmava, absolutamente convencido, que o queriam prender por causa de coisas que não fez, roubos, tráfico de droga, etc. Todo ele era um feixe de nervos e pareceu-me de facto que estava louco. Pensei que as drogas lhe deram a volta ao juízo e temi mesmo pela minha segurança, visto que apontava continuamente aquela arma para mim. No estado em que estava, não fosse o diabo tecê-las!... Senti medo, verdade verdadinha. A fobia da perseguição era, nele, mais que óbvia. Possivelmente, andava a injectar-se com cocaína... E, agora, tudo isto me faz pensar no autor da “Viagem ao Mundo da Droga”, que conta que, no seu quarto em Catmandu, Nepal, tem polícias debaixo de uma tapeçaria e que, no tecto, tem uma câmara de filmar a espioná-lo... Flippé!...
Fosse como fosse, também o Pedro me pareceu bastante tresloucado e fora de si. Fomos para o sótão, ele encostou finalmente a espingarda a uma parede, mas muito perto dele, fumou um charro de erva, que cultivara (disse-mo) no amazónico jardim da mãe, entre lantanas, onde pululavam abelhas atarefadas, jasmim e passifloras, iúcas e lúcia-lima, fúcsias e estramónios, ou daturas, de flores rosadas, amareladas e grandes como trompetas... Contou-me quase toda a sua vida, sobretudo as aventuras passadas por terras de Astérix e Joana d’Arc, durante as vindimas, e, enquanto isso, ouvíamos um velhinho e delicioso disco dos Supertramp. O que me contou fez-me aproximar ainda mais dele, porque eram também e sobretudo coisas íntimas. O quanto eu desejava ter tanto para contar! Poderia escrever livros e livros e livros!... Depois, demos uns toques na guitarra e considerei positivo o saldo daquela tarde, tanto para ele como para mim. Mas a cena da espingarda e o querer dar cabo dos chuis impressionaram-me sobremaneira, e não esqueci isso tão depressa.
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quarta-feira, 29 de abril de 2009

terça-feira, 28 de abril de 2009

A minha Vespa e os Vagabundos do Dharma de Kerouac

Isto é complicado, esta coisa do trabalho e do dinheiro, este sistema, esta engrenagem. Sei que somos todos moscas que vamos cair na mesma e única teia. E o problema está aí: ganha-se algum dinheiro, mas somos prisioneiros todos os dias, todos os meses, todos os anos e toda a vida. Foi assim por que tive de carregar pesados poceiros de uvas por encostas de barro para poder comprar a minha tenda e a minha mochila; e foi assim por que tive de descarregar a ombro milhares de sacos de cimento de cinquenta quilos e passar horas e horas de tédio, enfiado num armazém poeirento, para poder comprar, a prestações, a minha Vespa Piaggio (faça-se jus à marca) e com a qual partia agora ao encontro da Leandra e, depois, rumo à serra. Feliz e bem disposto...
A minha Vespa... Que máquina, a Vespa! Não andava muito, ia até aos setenta, pois o motor era de cinquenta centímetros cúbicos, mas levava-me sempre ao meu destino e nunca me deixou ficar a pé. Tive inúmeros furos, porém lá estava a fantástica e oportuna roda sobresselente para me salvar: em quinze minutos resolvia o problema e lá ia eu todo encantado da vida. Maravilha das maravilhas! (Parece que a marca me pagou uma choruda comissão para incluir aqui o nome da motoreta e dizer dela mil encantos – eh! eh! –, mas não, nada disso, que fique bem entendido).
Rigorosamente, não escolhi coisa alguma. O meu pai é que fez o negócio com o homem da oficina, como se fosse para ele, como se fosse ele quem iria pagar as letras durante dez longos meses. Tratou de tudo quase sem dizer nada, como era seu costume, autoritariamente. Só disse: «Tal dia vamos buscar a mota... É uma Vespa!» E eu: «Vespa? Mas quem lhe disse que eu queria uma Vespa?» Fiquei logo desapontado e, mais uma vez, surpreendido pelo autoritarismo todo-poderoso de meu pai. Mas não contestei; pensando melhor, até me agradava ter uma lambretta, tinha estilo, fazia-me sonhar com Itália, Roma, o Coliseu, a Piazza di Spagna cheia de pombas a esvoaçar ao sol, spaghetti, Veneza e gôndolas, e muitas Vespas pelas ruas estreitas ou nas vias rápidas, rumo à praia, com sensuais namoradas morenas – italianas dos contos de Moravia –, atrás, de cabelos compridos ao vento. Brrummm!... Arrivederci!... Alberoni disse que ela era feminina e roliça e que simbolizava um estilo de vida descontraído, liberto de medições de status ou de poder... Já um mito... Enfim, ter uma Vespa tornava-me diferente ou marcava a diferença entre os meus colegas, porque todos eles tinham motas iguais ou quase parecidas. Andava pouco, tudo bem; mas era bom assim, senão ainda acabaria por me matar numa curva qualquer...
Na oficina, lá estava ela, uma bela motoreta resplandecente e branca. «Parece mesmo uma vespa!» – exclamara, em 1946, Enrico Piaggio. Ao lado, outra igualzinha, mas preta. «É esta» – disse o meu pai, apontando para a branca. Resumindo e concluindo, eu estava ali só por estar, visto que as decisões já tinham sido tomadas. Sacana de pai!... Mas a preta atraía-me sobremaneira e, no último instante, mesmo antes de se fechar o negócio, disse:
- Prefiro a preta.
- A preta?
- Sim, a preta; é uma cor como outra qualquer.
- Pronto, a preta – aquiesceu o meu pai, acrescentando: – Podes-me escolher tudo que seja preto, menos a nora!...
O homem da oficina riu-se até tossir e lançar um escarro amarelo, sofredoramente, para um canto escuro de óleo e sucata. Parece que meu pai tinha a fama de ser o animador de festas e de serões com a sua jocosidade, embora, na prática, fosse uma pessoa tímida, contando anedotas mais ou menos divertidas ou dizendo piadas mais ou menos mordazes. Eis ali um vestígio disso, com uma nuance característica da sua geração racista.
- Que mal têm as mulheres pretas? – retorqui, algo indignado. – São tão inteligentes como as brancas e, na cama, são porventura melhores que as brancas.
Isto soava a ideologia machista e fora dito sob a influência dos inúmeros calendários de belas mas perturbantes mulheres-só-seios, pendurados um pouco por toda a parte, e que me davam a volta à cabeça. Faziam-me pensar que jamais conseguiria andar com uma mulher daquelas, porque todos os homens lhe lançariam, na rua, olhares cobiçosos... O que me levou ainda a concluir, mentalmente, que um belo e volumoso par de seios fica sempre bem... na mulher dos outros!...Ah! Mas não era bem assim que eu queria expressar os meus sentimentos em relação às mulheres, fossem elas pretas ou brancas. O que queria dizer era que, fisicamente, as mulheres de cor podem ser muito mais belas que as brancas, partindo do princípio que todas as mulheres são belas. Como uma scooter preta pode exercer muito mais fascínio que uma scooter branca.
A minha era preta, agradavelmente preta, e lá ia eu a cavalo nela ao encontro da Leandra, feliz, bem disposto e seguro. Seguro?... Não tanto. Incomodava-me uma estranha sensação de esquecimento, algo por fazer ou algo por trazer... O meu sentido número não-sei-quantos dizia-me: «Pensa bem, rapaz, porque te esqueceste de qualquer coisa... O que será? o que será?» Dei uma volta ao miolo e, quando descobri, dei meia volta à estrada e regressei a casa. Em cima do divã estava a minha bíblia, esqueci-me dela ali, aberta, capítulo 34, onde pude reler, como num flash de fotografia:
Que é um arco-íris, Senhor?
Um arco
Para os humildes.
Sempre a correr, enfiei o Kerouac na mochila e parti.
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sábado, 25 de abril de 2009


O rio


Foi numa noite de lua cheia que tomei a decisão...
Porquê de lua cheia, não sei. Mas ali estava mais uma dessas noites sagradamente misteriosas em que a lua cheia do seu trono vigia e rege as marés, a fecundidade das plantas, dos animais e até da própria Terra mãe no seu todo. E em alguns homens também consegue libertar a verdade da sua essência primitiva. É ela a amante dos lobisomens, pois é a única a quem se revelam verdadeiramente, a quem adoram: a sua bela e distante rainha da noite, a sua confidente sábia e muda.
Aquela foi também mais uma das minhas noites em que vagueei cansado de contradições, com o espírito demasiado nublado e o corpo tão pesado e ao mesmo tempo tão ausente. Senti em mim a ferocidade acutilante na multidão de vozes gritando-me e impossibilitando o sono e a paz. Tudo girava à minha volta, e uma barreira inexplicável teimava em voltar sempre, fazendo-me temer perder tudo e a própria razão, receando e tendo a certeza de não poder mais retomar o meu quotidiano vulgar de horários, pressas, regras, obrigações e tantas proibições. Os meus amigos, a maior parte deles, tomavam drogas, consumiam-se em cigarros e afundavam-se em cerveja, uísque e outras bebidas chamadas espirituosas, com o ar, dir-se-ia, mais felizardo do mundo... Não era assim que passava o meu tempo livre, embora também não me enclausurasse como um monge que pretende a santo. Para eles, essa pequena parcela de tempo era de fuga, mas de uma fuga alienatória que os fazia pensar: «Ao menos, divirto-me»... Era isto viver?
A este respeito, assaltava-me frequentemente um sonho repetitivo: fazia calor e todos esses meus amigos tomavam banho num rio, um rio bastante peculiar, de água choca, nauseabunda, onde boiavam excrementos de esgoto, ratazanas pestilentas e cadáveres de animais monstruosos em decomposição, uma verdadeira cloaca, um rio digno do pincel de Jerónimo Bosch; mas eles divertiam-se, mergulhavam e chapinhavam como crianças felizes, e, quando emergiam de cabelos a escorrer tripas e vísceras fedorentas, até me incitavam gritando: «Aproveita enquanto é tempo!», «A água está uma delícia!», «Vem, não sejas parvo!» e acicates do género... Sentia um desejo visceral, imenso, de me atirar de cabeça, mas não o fazia; dizia que para a semana, sim, daria uns mergulhos – coisa dramaticamente absurda e confrangedora, pois algo me garantia interiormente que no próximo fim-de-semana o termómetro iria baixar drasticamente e, portanto, fosse uma loucura tomar banho naquele rio...
Estaria a ficar louco?
A frustração tomava conta de mim como uma sombra ou um limbo pegajoso, e aquela noite de lua cheia fora decisiva. A mesma lua que move marés e faz germinar a semente escondida na terra, a mesma lua que inspira os poetas e desperta a fera que há em nós, também ela me iluminou o espírito e fez subir a montanha até ao refúgio da bruxa que eu tanto temia desde criança.
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domingo, 19 de abril de 2009

O lado de lá de cá
Na minha cidade havia um edifício que se destacava de todos os outros, apesar de as multidões de transeuntes mal repararem nele. As pessoas passavam por ele quase em corrida, quase acotovelando-se umas nas outras, sem se olharem, sem se sorrirem, ao som dos ruídos, dos reclames, das sirenes, dos motores, num vaivém frenético para chegarem a qualquer lado que nem elas próprias sabiam. Se calhar ignoravam-no, ou pura e simplesmente fugiam desse edifício. Acho que percebo agora por que me advertiam os adultos, quando eu era criança, para não me aproximar dele. Diziam que estavam lá dentro, enclausurados, poetas lunáticos, artistas sonhadores, homens e mulheres que falavam sozinhos, homens que fingiam ser inventores disto e daquilo, mulheres que se despiam e bailavam nuas, até ao êxtase, arrancando os cabelos, ou abrindo sulcos de sangue na pele…
Pois um dia ganhei coragem e entrei. Aquela grande porta estava aberta e, sem pensar duas vezes, entrei. Deparei com um corredor imenso, branco, e lá ao fundo as pessoas, paradas, olhavam para as paredes. Avancei e juntei-me a elas. Não vi nada nas paredes, mas as pessoas continuavam a olhar, muito serenas, contemplativas. Só depois reparei que, se olhasse com mais atenção, visualizaria telas expostas pelas paredes dos corredores, e que as pessoas as contemplavam com ar fascinado. Havia uma que se intitulava «Controla a tua raiva», outra «Multidão» e outra «As pessoas solitárias pensam em formigas»...
Também eu fiquei fascinado, diria mesmo subjugado ou completamente magnetizado pelos quadros. A certa altura fiquei na incerteza se estava no lado de cá ou no lado de lá das telas, e agarrou-se a mim um certo pavor: o de me poder vir a encontrar retratado numa daquelas pinturas. Por isso recuei, pé ante pé, primeiramente, depois a correr como um louco para escapar dali. Atravessei o grande corredor branco e, antes de sair do edifício, parei, meio aturdido, e li numa tabuleta:
MANICÓMIO. ENTRADA LIVRE.

Fiquei baralhado, sem perceber coisa alguma…
Ainda hoje estou na dúvida.
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